Introdução
Quando o assunto é fertilidade, é comum surgir a ideia de fazer tudo o que está ao alcance para aumentar as chances de sucesso. Nesse cenário, a suplementação ganha espaço, muitas vezes associada a promessas de melhora da qualidade dos óvulos ou do sêmen.
Mas, na prática clínica, a resposta é mais cuidadosa: existem suplementos com evidência em contextos específicos, mas o benefício não é universal e varia conforme o perfil de cada paciente.
Separar o que tem respaldo científico do que é apenas expectativa é essencial para uma condução segura.
Suplementação feminina: o que a ciência mostra
Na mulher, a suplementação costuma ser considerada com o objetivo de otimizar a resposta ovariana e, em alguns casos, a qualidade ovocitária.
Coenzima Q10 (CoQ10)
A CoQ10 é um dos suplementos mais estudados nesse contexto. Seu papel está relacionado à função mitocondrial, que é importante para o metabolismo celular.
Alguns estudos sugerem melhora em parâmetros como resposta ovariana e número de óvulos coletados em pacientes selecionadas, especialmente em casos de baixa reserva ovariana. No entanto, o impacto direto em desfechos como taxa de nascidos vivos ainda apresenta resultados heterogêneos na literatura.
DHEA
O DHEA já foi amplamente utilizado em pacientes com baixa reserva ovariana.
Revisões sistemáticas mais recentes, incluindo dados da Cochrane, indicam que o benefício em termos de aumento de taxa de nascidos vivos é incerto.
Por isso, seu uso deve ser criterioso e individualizado, evitando indicação rotineira.
Suplementação masculina: onde pode ajudar
Na fertilidade masculina, a suplementação costuma estar associada ao controle do estresse oxidativo, que pode impactar a qualidade espermática.
Antioxidantes (CoQ10, selênio, carnitina)
Há evidência de que antioxidantes podem melhorar parâmetros seminais, como concentração e motilidade, em alguns casos.
No entanto, assim como na suplementação feminina, os resultados em desfechos reprodutivos finais, como gravidez e nascimento, ainda são variáveis.
Zinco e ácido fólico
Podem contribuir para parâmetros seminais em contextos específicos, mas não devem ser utilizados de forma indiscriminada.
O fator tempo na suplementação
Um ponto frequentemente negligenciado é o tempo necessário para que qualquer intervenção tenha efeito.
O desenvolvimento dos folículos ovarianos e o ciclo completo da espermatogênese levam semanas a meses. Por isso, quando indicada, a suplementação costuma ser avaliada em um período mínimo de cerca de 3 meses.
Limitações importantes
É fundamental entender que a suplementação não substitui o tratamento médico.
Ela pode ser considerada como estratégia complementar em casos selecionados, mas não corrige causas estruturais de infertilidade.
Além disso, o uso sem orientação pode levar a doses inadequadas e efeitos indesejados.
Perguntas frequentes
Todo suplemento funciona para todos os pacientes?
Não. A indicação depende do diagnóstico, idade e contexto clínico.
Posso iniciar suplementação por conta própria?
Não é o ideal. A avaliação médica evita uso desnecessário ou excessivo.
Suplementos aumentam as chances de sucesso na FIV?
Em alguns casos, podem contribuir como parte do preparo, mas não garantem resultado.
Conclusão
A suplementação na reprodução humana deve ser entendida como um recurso complementar, e não como solução isolada.
Alguns compostos apresentam evidência em contextos específicos, mas a indicação precisa ser individualizada, baseada em diagnóstico e alinhada às melhores evidências disponíveis.
Mais importante do que utilizar múltiplos suplementos é definir uma estratégia de tratamento coerente com o perfil de cada paciente.
Fontes
- Cochrane Database of Systematic Reviews (2024).
Dehydroepiandrosterone (DHEA) for assisted reproduction. - Cochrane Library (2022).
Antioxidants for male subfertility. - Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA).
