O diagnóstico de câncer em idade reprodutiva costuma trazer preocupações imediatas: tratamento, prognóstico, recuperação e qualidade de vida.
Mas existe uma questão que ainda precisa ser discutida com mais frequência logo no início do cuidado oncológico: a fertilidade futura.
Esse tema se tornou ainda mais relevante nos últimos anos. Cada vez mais pessoas diagnosticadas com câncer em idade fértil sobrevivem à doença e desejam manter a possibilidade de construir uma família no futuro. Ao mesmo tempo, muitos tratamentos oncológicos podem comprometer a função reprodutiva, tanto em mulheres quanto em homens.
Por isso, diretrizes internacionais, como ASCO (American Society of Clinical Oncology), NCCN (National Comprehensive Cancer Network) e ESMO (European Society for Medical Oncology), reforçam que a conversa sobre preservação da fertilidade deve acontecer o mais cedo possível, preferencialmente no momento do diagnóstico e antes do início do tratamento.
Mais do que uma decisão técnica, essa orientação permite que o paciente compreenda seus riscos, conheça as alternativas disponíveis e participe das decisões com mais autonomia.
Como o câncer e seus tratamentos podem afetar a fertilidade?
O impacto do tratamento oncológico sobre a fertilidade varia conforme o tipo de câncer, o tratamento indicado, a dose utilizada, a idade do paciente, a reserva ovariana ou função testicular prévia e o tempo de exposição.
Em alguns casos, a fertilidade pode ser preservada. Em outros, pode haver redução importante da função reprodutiva ou infertilidade permanente.
Quimioterapia
A quimioterapia é uma das principais causas de infertilidade relacionada ao tratamento do câncer.
Alguns medicamentos têm maior potencial de toxicidade para ovários e testículos, especialmente os chamados agentes alquilantes, como ciclofosfamida e procarbazina.
Nas mulheres, a quimioterapia pode causar:
- redução da reserva ovariana;
- insuficiência ovariana prematura;
- irregularidade menstrual;
- menopausa precoce.
Nos homens, determinados esquemas podem reduzir a produção de espermatozoides e causar azoospermia, que é a ausência de espermatozoides no sêmen. Essa alteração pode ser temporária ou permanente, dependendo do tratamento.
O risco costuma ser maior quanto maior a dose acumulada e a intensidade da terapia.
Radioterapia
A radioterapia também pode comprometer a fertilidade, especialmente quando envolve a região pélvica, abdominal ou áreas próximas aos órgãos reprodutivos.
Nos homens, os testículos são sensíveis à radiação. Mesmo doses baixas podem reduzir temporariamente a produção de espermatozoides, enquanto doses mais elevadas podem causar infertilidade permanente.
Nas mulheres, os ovários são altamente sensíveis à radiação. Além da redução da função ovariana, a radioterapia sobre o útero pode comprometer a capacidade de gestar no futuro, aumentando riscos obstétricos em algumas situações.
Cirurgias oncológicas
Algumas cirurgias podem afetar diretamente a fertilidade, principalmente quando envolvem órgãos reprodutivos.
Procedimentos como histerectomia, ooforectomia bilateral e orquiectomia bilateral podem levar à infertilidade definitiva.
Em outros casos, o impacto pode ser indireto, como alterações na ejaculação após algumas cirurgias urológicas ou danos a estruturas importantes para a função reprodutiva.
Imunoterapias e terapias-alvo
As imunoterapias e terapias-alvo transformaram o tratamento de diversos tipos de câncer. No entanto, ainda existem dados limitados sobre seus efeitos reprodutivos a longo prazo.
Por isso, mesmo quando o tratamento indicado não envolve quimioterapia ou radioterapia clássicas, a discussão sobre fertilidade continua sendo importante.
Quando a preservação da fertilidade deve ser discutida?
A preservação da fertilidade deve ser abordada assim que possível, idealmente antes do início do tratamento oncológico.
Essa conversa deve acontecer:
- no momento do diagnóstico;
- antes de quimioterapia, radioterapia ou cirurgia com potencial impacto reprodutivo;
- quando houver mudança no plano de tratamento;
- durante o acompanhamento de sobreviventes do câncer;
- sempre que o paciente demonstrar desejo atual ou futuro de ter filhos.
Mesmo quando o paciente ainda não sabe se deseja engravidar ou ter filhos no futuro, receber informação adequada é parte do cuidado.
Preservar a fertilidade não significa obrigatoriamente realizar um procedimento. Significa ter acesso à informação, entender riscos e conhecer possibilidades.
Quais são as opções de preservação da fertilidade para homens?
Criopreservação de sêmen
O congelamento de sêmen é considerado o método padrão para homens púberes e adultos antes do tratamento oncológico.
É uma opção rápida, segura e, em muitos casos, possível mesmo quando há pouco tempo antes do início da quimioterapia ou radioterapia.
Após a coleta, os espermatozoides são congelados e armazenados para uso futuro em técnicas de reprodução assistida.
Extração testicular de espermatozoides
Em alguns casos, quando não há espermatozoides no ejaculado ou quando o paciente não consegue realizar a coleta por masturbação, pode ser indicada a obtenção de espermatozoides diretamente do testículo.
Essa estratégia pode ser considerada antes ou depois do tratamento, dependendo do caso e da avaliação especializada.
Criopreservação de tecido testicular
A criopreservação de tecido testicular ainda é considerada experimental em muitos contextos, mas pode ser discutida para meninos pré-púberes, que ainda não produzem espermatozoides maduros.
Nesses casos, a decisão deve envolver equipe especializada, responsáveis legais e análise cuidadosa dos riscos e benefícios.
Quais são as opções de preservação da fertilidade para mulheres?
Criopreservação de óvulos
O congelamento de óvulos é uma das principais estratégias de preservação da fertilidade feminina.
O processo envolve estimulação ovariana, coleta dos óvulos e vitrificação, técnica moderna de congelamento que permite armazenar os óvulos para uso futuro.
Essa opção pode ser indicada para mulheres sem parceiro ou para aquelas que desejam preservar autonomia reprodutiva sem formar embriões naquele momento.
Criopreservação de embriões
A criopreservação de embriões também é uma técnica estabelecida.
Nesse caso, após a coleta dos óvulos, eles são fertilizados em laboratório com espermatozoides do parceiro ou de doador. Os embriões formados são congelados para uso futuro.
É uma alternativa com ampla experiência clínica, mas exige decisões específicas sobre uso de gametas e destino dos embriões.
Criopreservação de tecido ovariano
A criopreservação de tecido ovariano é uma opção importante, especialmente quando não há tempo para estimulação ovariana ou em pacientes que ainda não passaram pela puberdade.
A técnica consiste na retirada e congelamento de fragmentos do tecido ovariano antes do tratamento. No futuro, esse tecido pode ser reimplantado com o objetivo de restaurar função hormonal e, em alguns casos, permitir gravidez.
A diretriz da ASCO de 2025 passou a incluir a criopreservação de tecido ovariano entre os métodos estabelecidos de preservação da fertilidade.
Transposição ovariana
A transposição ovariana pode ser indicada para mulheres que precisarão realizar radioterapia pélvica.
O procedimento consiste em deslocar os ovários para fora do campo de radiação, com o objetivo de reduzir o dano ovariano.
Essa estratégia não elimina totalmente o risco de comprometimento da fertilidade, mas pode ajudar a preservar a função ovariana em casos selecionados.
E se a fertilidade não foi preservada antes do tratamento?
Mesmo quando a preservação da fertilidade não foi realizada antes do tratamento oncológico, ainda pode haver possibilidades.
Após o tratamento, a avaliação deve considerar idade, tipo de câncer, tratamento realizado, função ovariana ou testicular, exames hormonais, espermograma e desejo reprodutivo.
Nas mulheres, podem ser avaliadas opções como:
- investigação da reserva ovariana;
- congelamento de óvulos, se ainda houver função ovariana;
- congelamento de embriões;
- uso de óvulos doados, em casos específicos.
Nos homens, mesmo em situações de azoospermia após quimioterapia, técnicas como extração testicular de espermatozoides associada à ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoide) podem ser consideradas em alguns casos.
Também é importante lembrar que alguns pacientes conseguem engravidar espontaneamente após o tratamento. Por isso, a fertilidade não deve ser presumida, nem para descartar chances futuras, nem para dispensar métodos contraceptivos quando a gravidez não é desejada.
Quanto tempo esperar para engravidar após o câncer?
Essa resposta depende do tipo de câncer, do tratamento realizado, do risco de recorrência, da idade da paciente e das orientações da equipe oncológica.
Em alguns casos, pode ser recomendado aguardar um período após o fim do tratamento antes de tentar engravidar. Em outros, especialmente quando há uso prolongado de terapia hormonal, como em alguns casos de câncer de mama, a decisão pode exigir planejamento conjunto entre oncologista e especialista em reprodução humana.
O mais importante é que essa decisão seja individualizada.
De forma geral, estudos e diretrizes apontam que a gravidez após o câncer pode ser segura em muitos cenários e não necessariamente aumenta o risco de recorrência, mas essa avaliação precisa considerar o tipo de tumor, o tratamento e o estado clínico da paciente.
Preservação da fertilidade é parte do cuidado oncológico
A preservação da fertilidade não deve ser vista como um assunto secundário diante do diagnóstico de câncer.
Ela faz parte do cuidado integral, especialmente para pacientes em idade reprodutiva.
A conversa precisa acontecer cedo, antes que o tratamento reduza as opções disponíveis. E deve envolver informação clara, avaliação individualizada e integração entre oncologia, medicina reprodutiva, psicologia e suporte especializado.
Preservar a fertilidade não significa apenas congelar óvulos, espermatozoides, embriões ou tecidos.
Significa preservar possibilidades, autonomia e qualidade de vida.
Conclusão
O câncer e seus tratamentos podem impactar a fertilidade, mas hoje existem estratégias seguras e estabelecidas para reduzir esse risco e ampliar possibilidades futuras.
O ponto mais importante é o tempo da conversa.
Quanto antes o tema for abordado, maiores são as chances de discutir alternativas adequadas ao diagnóstico, ao tratamento e ao projeto de vida de cada paciente.
Na reprodução humana, ciência e cuidado caminham juntos. E, na oncofertilidade, isso significa tratar a doença sem deixar de olhar para o futuro.
Fontes:
- American Society of Clinical Oncology, ASCO. Fertility Preservation in People With Cancer, guideline update, 2025.
- National Comprehensive Cancer Network, NCCN. Survivorship Guidelines, versão 2024.
- European Society for Medical Oncology, ESMO. Fertility preservation and post-treatment pregnancies in post-pubertal cancer patients.
- Lambertini M. et al. Fertility preservation and post-treatment pregnancies in post-pubertal cancer patients: ESMO Clinical Practice Guidelines. Annals of Oncology.
