A preservação da fertilidade é uma das grandes evoluções da medicina reprodutiva nas últimas décadas.
Se, antes, a possibilidade de engravidar estava fortemente condicionada ao tempo biológico, hoje existem estratégias que podem ajudar a proteger possibilidades futuras em determinados contextos.
Esse tema se tornou cada vez mais relevante por dois motivos principais: o aumento da sobrevida de pacientes em idade reprodutiva submetidas a tratamentos potencialmente gonadotóxicos e o adiamento da maternidade por razões pessoais, profissionais, afetivas ou sociais.
Por isso, a preservação da fertilidade passou a ocupar um papel importante tanto na oncofertilidade quanto no planejamento reprodutivo.
Mais do que uma decisão técnica, trata-se de uma escolha que envolve informação qualificada, timing adequado e compreensão realista das possibilidades de cada paciente.
O que é preservação da fertilidade?
Preservação da fertilidade é o conjunto de estratégias utilizadas para tentar manter a possibilidade de gravidez no futuro.
Na prática, isso pode envolver o congelamento de óvulos, embriões ou tecido ovariano, dependendo da idade, do histórico clínico, do tempo disponível e do motivo da indicação.
A preservação pode ser considerada em situações médicas, como antes de tratamentos oncológicos, ou em contextos eletivos, quando a mulher deseja adiar a maternidade e reduzir o impacto do envelhecimento ovariano.
É importante reforçar: preservar a fertilidade não significa garantir uma gravidez futura. O objetivo é ampliar possibilidades e permitir que decisões reprodutivas sejam tomadas com mais tempo e informação.
Quando considerar a preservação da fertilidade?
A indicação não é igual para todas as pacientes.
Ela deve ser individualizada, considerando idade, reserva ovariana, histórico de saúde, urgência do tratamento, desejo reprodutivo e condições clínicas no momento da avaliação.
De forma geral, a preservação da fertilidade costuma ser considerada em dois grandes cenários.
Preservação da fertilidade por indicação médica
A preservação por indicação médica é indicada quando existe risco de comprometimento da função reprodutiva por uma doença ou pelo tratamento necessário.
Esse é o caso, por exemplo, de pacientes que receberão terapias potencialmente gonadotóxicas, ou seja, tratamentos que podem afetar ovários, óvulos ou a função hormonal.
Entre as situações mais frequentes, estão:
- câncer de mama;
- linfomas;
- leucemias;
- sarcomas;
- necessidade de quimioterapia, especialmente com agentes alquilantes;
- radioterapia em região pélvica;
- cirurgias que envolvam ovários ou útero;
- algumas doenças autoimunes que exigem tratamentos com risco reprodutivo.
Essas intervenções podem reduzir a reserva ovariana, provocar insuficiência ovariana prematura ou comprometer a capacidade reprodutiva futura.
Por isso, diretrizes internacionais recomendam que a conversa sobre fertilidade aconteça o mais cedo possível, idealmente no momento do diagnóstico e antes do início do tratamento. A atualização da ASCO (American Society of Clinical Oncology), de 2025 reforça que métodos estabelecidos de preservação, como criopreservação de óvulos, embriões e tecido ovariano, devem ser discutidos quando indicados.
Nesses casos, o tempo é um fator essencial. Quanto antes a paciente for avaliada, maiores são as possibilidades de escolher uma estratégia adequada sem comprometer o tratamento principal.
Preservação eletiva da fertilidade
A preservação eletiva está relacionada ao planejamento reprodutivo.
Ela pode ser considerada por mulheres que ainda não desejam engravidar, mas querem preservar óvulos em uma fase em que a qualidade e a quantidade ainda são mais favoráveis.
A fertilidade feminina diminui progressivamente com a idade. Esse declínio ocorre porque a reserva ovariana reduz ao longo da vida e, com o passar dos anos, também há piora na qualidade dos óvulos.
Esse processo se torna mais evidente a partir da terceira década de vida e se intensifica após os 35 anos.
Por isso, o congelamento de óvulos pode ser uma estratégia para mulheres que desejam adiar a maternidade, mas querem manter possibilidades reprodutivas para o futuro.
A ASRM (American Society for Reproductive Medicine) considera o congelamento planejado de óvulos uma prática eticamente permitida, desde que a paciente receba aconselhamento adequado sobre benefícios, limitações, incertezas e chances reais de sucesso.
Por que preservar a fertilidade?
A decisão de preservar a fertilidade não envolve apenas biologia.
Ela também passa por autonomia, qualidade de vida, contexto emocional e possibilidade de planejamento.
1. Para ampliar possibilidades futuras
O congelamento de óvulos ou embriões permite que a paciente tenha uma alternativa reprodutiva futura com células preservadas em uma idade anterior.
Isso pode ser relevante especialmente quando há adiamento da maternidade ou risco de perda da função ovariana por tratamento médico.
2. Para reduzir o impacto do tempo
A idade no momento do congelamento é um dos fatores mais importantes para os resultados futuros.
Quanto mais jovem a paciente no momento da preservação, maiores tendem a ser as chances relacionadas à qualidade dos óvulos obtidos. Ainda assim, o número de óvulos coletados, a reserva ovariana e as condições clínicas também influenciam o prognóstico.
3. Para oferecer mais autonomia reprodutiva
Preservar a fertilidade pode permitir que decisões importantes não fiquem condicionadas exclusivamente ao ritmo do tempo biológico.
Isso não significa adiar indefinidamente a maternidade, nem eliminar os limites naturais da reprodução.
Significa oferecer mais informação e mais possibilidades para decidir.
4. Para integrar fertilidade ao cuidado em saúde
Em pacientes oncológicas ou com doenças que exigem tratamentos de risco para a fertilidade, essa discussão deve fazer parte do cuidado integral.
Não se trata de um assunto secundário. Trata-se de considerar a vida futura da paciente para além do tratamento imediato.
Como funciona a preservação da fertilidade?
As estratégias variam conforme o contexto clínico, a idade da paciente, o tempo disponível e o desejo reprodutivo.
As principais opções incluem:
Criopreservação de óvulos
A criopreservação de óvulos é uma das técnicas mais utilizadas atualmente.
Ela é especialmente indicada para mulheres que não têm parceiro, que não desejam formar embriões naquele momento ou que querem preservar autonomia sobre suas decisões reprodutivas.
O processo envolve:
- estimulação ovariana controlada;
- acompanhamento por ultrassom e exames hormonais;
- coleta dos óvulos;
- congelamento por vitrificação.
A vitrificação é uma técnica moderna de congelamento rápido, que melhorou significativamente os resultados da preservação de óvulos.
Mesmo assim, é fundamental lembrar que congelar óvulos não garante gravidez futura. O resultado depende da idade no momento do congelamento, da quantidade de óvulos preservados, da qualidade dos óvulos e das condições clínicas no momento da utilização.
Criopreservação de embriões
Na criopreservação de embriões, os óvulos coletados são fertilizados em laboratório antes do congelamento.
Essa é uma técnica estabelecida, com ampla experiência clínica, e pode ser indicada para pacientes com parceiro ou que optam pelo uso de sêmen de doador.
A principal diferença em relação ao congelamento de óvulos é que, nesse caso, já existe formação de embriões antes da preservação.
Por isso, a decisão envolve aspectos médicos, éticos e pessoais que precisam ser discutidos com clareza.
Criopreservação de tecido ovariano
A criopreservação de tecido ovariano pode ser indicada em situações específicas, especialmente quando não há tempo para realizar estimulação ovariana antes do início de um tratamento oncológico.
A técnica consiste na retirada e congelamento de fragmentos do tecido ovariano, com possibilidade de reimplante futuro.
Além do potencial reprodutivo, essa estratégia pode contribuir para a recuperação da função hormonal ovariana em alguns casos.
A atualização da ASCO (American Society of Clinical Oncology), de 2025 passou a reconhecer a criopreservação de tecido ovariano como método estabelecido em preservação da fertilidade para pessoas com câncer, quando indicado.
Existe idade ideal para preservar a fertilidade?
Não existe uma única idade ideal para todas as mulheres.
Mas existe um princípio importante: quanto mais cedo a preservação é realizada, melhores tendem a ser as perspectivas relacionadas à qualidade dos óvulos.
De forma geral, a preservação eletiva costuma ser mais discutida antes dos 35 anos, fase em que a qualidade dos óvulos tende a ser mais favorável.
Após os 35 anos, o procedimento ainda pode ser realizado, mas as taxas de sucesso tendem a reduzir progressivamente. Em alguns casos, pode ser necessário considerar mais de um ciclo de estimulação para tentar obter um número adequado de óvulos.
Por isso, a avaliação individual é indispensável.
A decisão não deve se basear apenas na idade, mas também na reserva ovariana, nos exames hormonais, na contagem de folículos antrais, no histórico clínico e nos objetivos reprodutivos da paciente.
Em quais situações a avaliação não deve ser adiada?
Alguns cenários exigem avaliação especializada com mais rapidez.
Entre eles:
- diagnóstico recente de câncer;
- indicação de quimioterapia ou radioterapia;
- necessidade de cirurgia com possível impacto sobre ovários ou útero;
- baixa reserva ovariana;
- histórico familiar de menopausa precoce;
- endometriose com possível impacto ovariano;
- cirurgias ovarianas prévias;
- desejo de adiar a maternidade após os 35 anos.
Nesses casos, o tempo pode influenciar diretamente as opções disponíveis.
A preservação da fertilidade garante gravidez no futuro?
Não.
Essa é uma das informações mais importantes sobre o tema.
A preservação da fertilidade aumenta possibilidades, mas não garante gravidez.
O sucesso futuro depende de diversos fatores, como:
- idade no momento do congelamento;
- quantidade de óvulos obtidos;
- qualidade dos óvulos;
- resposta à estimulação ovariana;
- técnica utilizada;
- qualidade seminal, quando houver fertilização;
- condições uterinas e clínicas no momento da tentativa de gravidez.
Por isso, a preservação deve ser compreendida como uma estratégia de planejamento, e não como uma promessa de resultado.
Preservação da fertilidade: uma decisão que precisa de informação
Preservar a fertilidade é uma decisão que deve ser tomada com clareza.
Em alguns casos, ela faz parte de um cuidado médico urgente, como antes de tratamentos oncológicos. Em outros, está relacionada ao planejamento reprodutivo e ao desejo de manter possibilidades abertas para o futuro.
Em todos os cenários, a indicação precisa ser individualizada.
Não basta considerar apenas a idade. É necessário avaliar o contexto clínico, a reserva ovariana, o tempo disponível, as expectativas da paciente e as chances reais de benefício.
A preservação da fertilidade representa um avanço importante da medicina reprodutiva, mas precisa ser conduzida com responsabilidade.
O objetivo não é criar falsas garantias.
É oferecer informação, estratégia e cuidado para que cada paciente possa decidir com mais autonomia sobre seu futuro reprodutivo.
Conclusão
A preservação da fertilidade pode ser considerada tanto por indicação médica quanto por planejamento reprodutivo.
Em pacientes que enfrentarão tratamentos com risco para a função ovariana, a conversa deve acontecer o quanto antes. Já em mulheres que desejam adiar a maternidade, a avaliação precoce ajuda a entender o melhor momento para agir.
Em ambos os casos, o tempo importa.
Mas ele não deve ser visto apenas como um fator de pressão. Quando bem orientado, pode se tornar uma ferramenta de planejamento.
Preservar a fertilidade é, acima de tudo, preservar possibilidades com base em ciência, informação e cuidado individualizado.
FAQ:
Preservar a fertilidade significa garantir gravidez?
Não. A preservação da fertilidade aumenta possibilidades futuras, mas não garante gravidez. O resultado depende principalmente da idade no momento do congelamento, da quantidade e qualidade dos óvulos e das condições clínicas no momento da tentativa.
Qual é a melhor idade para congelar óvulos?
Não existe uma idade única para todas as mulheres. De forma geral, a preservação costuma ter melhores perspectivas quando realizada antes dos 35 anos, pois a qualidade dos óvulos tende a ser mais favorável.
Quem deve considerar a preservação da fertilidade?
Mulheres que passarão por tratamentos com risco para a função ovariana, como quimioterapia, radioterapia pélvica ou cirurgias ovarianas, devem considerar essa avaliação. A preservação também pode ser considerada por mulheres que desejam adiar a maternidade.
Quais são as principais técnicas de preservação da fertilidade?
As principais técnicas são criopreservação de óvulos, criopreservação de embriões e criopreservação de tecido ovariano. A escolha depende do contexto clínico, da idade, do tempo disponível e dos objetivos reprodutivos da paciente.
Preservação da fertilidade é indicada apenas para pacientes com câncer?
Não. A preservação pode ser indicada por motivos médicos, como câncer e outras doenças que exigem tratamentos gonadotóxicos, mas também pode ser considerada no planejamento reprodutivo eletivo.
Fontes:
- American Society for Reproductive Medicine, ASRM. Planned oocyte cryopreservation to preserve future reproductive potential.
- American Society for Reproductive Medicine, ASRM. Fertility preservation in patients with medical indications.
- American Society of Clinical Oncology, ASCO. Fertility Preservation in People With Cancer, guideline update, 2025.
- European Society of Human Reproduction and Embryology, ESHRE. Female Fertility Preservation Guideline.
- National Comprehensive Cancer Network, NCCN. Guidelines on survivorship and reproductive health.
