Quando alguém começa a pesquisar sobre tratamento de fertilidade, uma coisa chama atenção rapidamente: a quantidade de tecnologias, exames, suplementos e procedimentos oferecidos no universo da fertilização in vitro.
Time-lapse, PGT-A, biópsia embrionária, hormônios adicionais, vitaminas específicas, testes complementares e diferentes estratégias laboratoriais aparecem com frequência em sites, redes sociais, grupos de pacientes e materiais de clínicas.
A sensação pode ser a seguinte: quanto mais recursos, maiores serão as chances.
Mas, na reprodução humana, essa lógica nem sempre é verdadeira.
Antes de incorporar qualquer exame, tecnologia ou procedimento ao tratamento, a pergunta mais importante deve ser: existe evidência científica que sustente o uso desse recurso no meu caso?
Essa reflexão orienta a prática da Clínica Insemine e é o ponto de partida deste artigo.
O que a tecnologia na FIV realmente pode fazer?
A fertilização in vitro evoluiu muito nas últimas décadas.
Hoje, existem recursos laboratoriais, medicamentos, exames genéticos e ferramentas de acompanhamento que antes não faziam parte da rotina da reprodução assistida.
Essa evolução é muito importante.
Mas existe uma diferença entre tecnologia com papel bem definido e tecnologia oferecida de forma indiscriminada apenas porque parece mais moderna.
Na medicina reprodutiva, um recurso só deve ser incorporado quando existe uma razão clínica para isso.
Mais tecnologia pode ajudar quando existe indicação.
Mas também pode aumentar custo, ansiedade, complexidade e, em alguns casos, não melhorar o resultado.
Por isso, o ponto central não é usar tudo o que está disponível.
É usar o que realmente faz sentido para aquela paciente ou aquele casal.
PGT-A e biópsia embrionária: quando a informação genética ajuda?
O PGT-A, teste genético pré-implantacional para aneuploidias, é uma das tecnologias mais discutidas na fertilização in vitro.
Ele é realizado a partir de uma biópsia embrionária, geralmente quando o embrião chega ao estágio de blastocisto. Algumas células do trofectoderma, região que dará origem à placenta, são analisadas para avaliar alterações no número de cromossomos.
A lógica parece simples: se for possível identificar embriões cromossomicamente alterados antes da transferência, a escolha do embrião seria melhor.
Mas a realidade é mais complexa.
O PGT-A não trata o embrião e não corrige alterações cromossômicas. Ele fornece uma informação genética que pode ajudar em determinados contextos, mas não deve ser usado como rotina para todas as pacientes.
O exame pode ser considerado em situações como idade materna avançada, histórico de perdas gestacionais recorrentes, falhas repetidas de implantação ou quando há muitos embriões disponíveis e a equipe precisa priorizar a ordem de transferência.
Fora desses contextos, a indicação precisa ser avaliada com cuidado. Em algumas pacientes, especialmente quando há poucos embriões, acrescentar essa etapa pode reduzir o número de embriões disponíveis para transferência sem necessariamente aumentar a chance final de nascimento.
O problema, portanto, não é a técnica em si.
É a indicação sem critério.
Time-lapse: acompanhar melhor significa engravidar mais?
O time-lapse permite acompanhar o desenvolvimento embrionário dentro da incubadora, sem a necessidade de retirar os embriões repetidamente para avaliação microscópica.
Esse recurso pode oferecer informações complementares para a equipe de embriologia e ajudar na observação do desenvolvimento embrionário ao longo do tempo.
Mas acompanhar melhor não significa, automaticamente, aumentar as chances de gravidez.
Revisões e órgãos reguladores internacionais apontam que, para a maioria dos pacientes, o uso rotineiro do time-lapse ainda não demonstrou melhora consistente nas chances de nascimento quando comparado ao cultivo convencional.
Isso não significa que a tecnologia não tenha valor.
Significa que ela deve ser apresentada com transparência: como uma ferramenta complementar de avaliação embrionária, e não como garantia de melhores resultados.
Na fertilização in vitro, a qualidade do laboratório, a experiência da equipe, o protocolo clínico e a indicação correta continuam sendo mais importantes do que o uso de uma tecnologia isolada.
Levar todos os embriões até blastocisto é sempre melhor?
Outra ideia muito comum é a de que todo embrião deve ser cultivado até o estágio de blastocisto, geralmente no quinto ou sexto dia de desenvolvimento.
Em muitos casos, transferir blastocistos pode ser uma ótima estratégia.
Mas isso não significa que seja a melhor escolha para todas as pacientes.
Quando existe um bom número de embriões em desenvolvimento, aguardar até blastocisto pode ajudar na seleção embrionária e na organização da transferência.
Por outro lado, em pacientes com poucos embriões disponíveis, baixa reserva ovariana ou idade mais avançada, esperar até o quinto dia pode aumentar o risco de não haver embrião para transferir.
Nesses casos, a transferência em D3, no terceiro dia de desenvolvimento, pode ser considerada dentro de uma estratégia individualizada.
Protocolar é diferente de individualizar.
O melhor estágio para transferência depende do número de embriões, da idade da paciente, da evolução em laboratório, do histórico do casal e da conduta médica definida para aquele caso.
Suplementos e vitaminas: o que faz sentido?
Suplementos de fertilidade se tornaram muito populares.
É comum que pacientes cheguem à consulta usando vários produtos, muitas vezes com a expectativa de melhorar a reserva ovariana, a qualidade dos óvulos ou as chances de gravidez.
Mas suplementação não deve ser tratada como fórmula pronta.
O uso indiscriminado de vitaminas e suplementos não melhora a reserva ovariana nem reverte a perda natural de qualidade dos óvulos relacionada à idade.
Isso não significa que suplementos nunca tenham papel.
Em casos específicos, como deficiência nutricional identificada, preparo pré-concepcional, alterações metabólicas ou determinadas condições clínicas, eles podem ser indicados.
Mas isso é diferente de prescrever múltiplos produtos de forma generalizada.
Na reprodução humana, suplementação precisa ter motivo, dose, tempo e objetivo.
E nunca deve substituir investigação, diagnóstico ou tratamento bem indicado.
Outras condutas que merecem atenção crítica
Além dos exemplos anteriores, existem práticas que aparecem com frequência na reprodução assistida, mas que exigem análise crítica.
O acréscimo de LH durante a estimulação ovariana, por exemplo, pode ter indicação em alguns perfis de pacientes, mas não deve ser considerado necessário para todas.
A dosagem de progesterona durante o ciclo pode ser útil em situações específicas, mas não precisa ser tratada como exame obrigatório em todos os protocolos.
O repouso absoluto após a transferência embrionária também merece esclarecimento: estudos não mostram benefício dessa conduta. O embrião não “cai” por causa do movimento, e o repouso rigoroso pode aumentar ansiedade sem melhorar as chances de implantação.
Exames como dosagem de alumínio e selênio não fazem parte da investigação rotineira de pacientes em reprodução assistida sem indicação clínica específica.
E, no caso dos homens, a reposição de testosterona sem indicação adequada pode prejudicar a produção de espermatozoides. Diretrizes da American Urological Association e da American Society for Reproductive Medicine orientam que homens interessados em fertilidade atual ou futura não devem receber testosterona como monoterapia, já que ela pode reduzir ou até interromper a espermatogênese.
Esses exemplos mostram que a medicina reprodutiva precisa ser guiada por critério.
Nem toda intervenção adicional melhora o resultado.
E nem toda tecnologia disponível deve ser usada para todo mundo.
Um recurso simples, mas com evidência: ecografia na transferência embrionária
Nem sempre o recurso mais importante é o mais caro ou mais sofisticado.
A ecografia durante a transferência embrionária é um bom exemplo.
Ela permite orientar melhor o posicionamento do cateter dentro do útero durante a transferência. Esse cuidado ajuda a tornar o procedimento mais preciso e está associado a melhores taxas de gravidez e nascimento em comparação com transferências feitas sem orientação ultrassonográfica.
A ASRM considera que há boa evidência, com base em estudos randomizados, para recomendar a orientação por ultrassom transabdominal durante a transferência embrionária.
Esse exemplo mostra que a pergunta mais importante não é se o recurso é novo, complexo ou caro.
A pergunta é se ele realmente melhora a tomada de decisão e o cuidado da paciente.
A pergunta certa antes de aceitar qualquer procedimento
Nenhuma tecnologia é boa ou ruim apenas por existir.
O valor de um recurso depende de três pontos:
- evidência científica;
- indicação clínica;
- impacto real na estratégia daquele caso.
Um protocolo cheio de procedimentos adicionais não é, por si só, sinal de cuidado avançado.
Pode ser apenas um tratamento mais caro, mais complexo e mais desgastante.
Na reprodução humana, cada etapa acrescentada ao tratamento precisa responder a uma pergunta clara:
- Esse procedimento muda minha conduta?
- Ele aumenta minhas chances de forma comprovada para o meu perfil?
- Ele reduz algum risco relevante?
- Ele justifica custo, tempo e impacto emocional?
Quando a resposta não é clara, a indicação precisa ser repensada.
O compromisso da Insemine com ciência e individualização
Na Insemine, a tecnologia é valorizada quando ajuda a tomar decisões melhores.
Isso significa que exames complementares, recursos laboratoriais, suplementos, medicamentos e procedimentos adicionais são avaliados caso a caso.
A conduta não parte da ideia de usar tudo o que existe.
Parte da história da paciente, dos exames, do diagnóstico, da idade, do número de embriões disponíveis e dos objetivos reprodutivos do casal.
Mais recursos nem sempre significam mais chances.
Às vezes, o melhor cuidado está justamente em saber o que não acrescentar.
Medicina baseada em evidências não significa deixar de inovar.
Significa inovar com responsabilidade.
Conclusão
A tecnologia transformou a fertilização in vitro.
Mas tecnologia sem indicação não é sinônimo de melhor tratamento.
Time-lapse, PGT-A, suplementos, exames adicionais, hormônios complementares e diferentes estratégias laboratoriais podem ter papel em contextos específicos.
Mas nenhum recurso deve ser incorporado apenas porque parece moderno ou porque foi divulgado como indispensável.
Na reprodução humana, o melhor tratamento não é o que acumula mais etapas.
É o que faz sentido para aquele caso, naquele momento, com base em ciência, experiência clínica e individualização.
Se você tem dúvidas sobre o que realmente pode fazer diferença no seu tratamento de fertilidade, agende uma avaliação com a equipe da Insemine.
A conversa começa pela sua história, não por um protocolo padrão.
Referências científicas
- American Society for Reproductive Medicine. The use of preimplantation genetic testing for aneuploidy: a committee opinion.
- Human Fertilisation and Embryology Authority. Treatment add-ons: evidence ratings.
- Human Fertilisation and Embryology Authority. Time-lapse imaging and incubation.
- American Society for Reproductive Medicine. Performing the embryo transfer: a guideline.
- American Urological Association and American Society for Reproductive Medicine. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline.
- Cochrane Database of Systematic Reviews. Reviews on assisted reproductive technology add-ons and adjuvant treatments.
