Muitas pacientes chegam ao consultório com uma ideia já formada: “quero fazer o PGT-A”.
A lógica parece simples. Se é possível analisar os embriões antes da transferência e identificar alterações cromossômicas, isso deveria aumentar as chances de gravidez, certo?
Na prática, a resposta é mais complexa.
O PGT-A, teste genético pré-implantacional para aneuploidias, pode ser uma ferramenta importante em situações específicas. Mas ele não deve ser tratado como uma etapa obrigatória em todos os ciclos de fertilização in vitro.
Um grande estudo publicado em 2026, com dados de mais de 111 mil ciclos do registro nacional de reprodução assistida do Reino Unido, reforçou justamente esse ponto: quando usado de forma rotineira, o PGT-A não mostrou aumento nas taxas de nascidos vivos e esteve associado a menores taxas de sucesso em alguns grupos.
Isso não significa que o exame deva ser abandonado.
Significa que ele precisa ser bem indicado.
O que é o PGT-A e como funciona?
O PGT-A é um exame realizado durante o tratamento de fertilização in vitro.
Quando o embrião chega ao estágio de blastocisto, geralmente entre o quinto e o sexto dia de desenvolvimento, algumas células da região que dará origem à placenta, chamada trofectoderma, são retiradas por biópsia.
Essas células são analisadas para verificar se o embrião apresenta o número esperado de cromossomos.
Após a biópsia, o embrião costuma ser congelado enquanto o resultado é processado. A partir desse resultado, a equipe médica pode selecionar quais embriões serão priorizados para transferência.
Mas existe um ponto essencial: o PGT-A não trata o embrião.
Ele não corrige alterações cromossômicas. Ele apenas fornece uma informação genética que pode ou não mudar a estratégia do tratamento, dependendo do contexto da paciente ou do casal.
Por que o PGT-A se tornou tão popular?
Durante muitos anos, a ideia de selecionar apenas embriões cromossomicamente normais ganhou força nos tratamentos de reprodução assistida.
A lógica parece intuitiva: se um embrião apresenta alteração cromossômica, por que transferi-lo?
Essa percepção fez com que o PGT-A passasse a ser visto, em muitos lugares, como uma forma de aumentar as chances de sucesso da fertilização in vitro.
O problema é que a medicina baseada em evidências não pode se apoiar apenas em uma lógica aparentemente convincente.
Ela precisa ser guiada por dados.
E os dados mostram que o benefício do PGT-A depende muito do perfil da paciente, da idade, do número de embriões disponíveis, do histórico reprodutivo e do objetivo clínico do tratamento.
O que mostrou o estudo com mais de 111 mil ciclos?
Um estudo recente utilizou dados do registro nacional de reprodução assistida do Reino Unido, conhecido como HFEA, e analisou mais de 111 mil episódios de tratamento realizados entre 2014 e 2018.
Os pesquisadores compararam ciclos com PGT-A e ciclos convencionais de fertilização in vitro, ajustando variáveis como idade, causa da infertilidade, número de óvulos, número de embriões, tratamentos anteriores e centro de tratamento.
O principal achado foi importante: na prática clínica rotineira, os ciclos com PGT-A apresentaram menor taxa de nascidos vivos em comparação com os ciclos sem o teste.
Essa redução apareceu tanto na primeira transferência quanto na análise cumulativa do ciclo completo, considerando todas as transferências associadas àquela coleta de óvulos.
Outro dado relevante foi o número de ciclos que não chegaram à transferência embrionária. Nos tratamentos com PGT-A, quase metade dos ciclos não teve transferência no primeiro ciclo analisado. Nos ciclos convencionais, esse percentual foi muito menor.
Isso pode acontecer porque, ao realizar o teste, alguns embriões deixam de ser considerados aptos para transferência. Em determinados contextos, especialmente quando há poucos embriões disponíveis, isso pode reduzir as oportunidades de transferência.
O estudo também observou redução nas perdas gestacionais entre os ciclos com PGT-A, o que pode ser relevante para pacientes em que evitar uma nova perda gestacional seja uma prioridade clínica importante.
Portanto, a mensagem não é simples.
O PGT-A pode reduzir o risco de transferir embriões com alterações cromossômicas. Mas, quando usado de forma indiscriminada, pode também reduzir o número de embriões disponíveis para transferência e não necessariamente aumentar a chance final de nascimento.
O PGT-A deve ser abandonado?
Não.
Essa seria uma interpretação equivocada.
O que o estudo reforça é que o PGT-A não deve ser indicado como rotina para todas as pacientes que fazem fertilização in vitro.
Existem situações em que o exame pode fazer sentido, especialmente quando há uma pergunta clínica clara a ser respondida.
Entre os contextos em que o PGT-A pode ser discutido estão:
- idade materna avançada;
- histórico de perdas gestacionais recorrentes;
- falhas repetidas de implantação;
- grande número de embriões disponíveis;
- necessidade de reduzir o risco de nova perda gestacional;
- casos em que a informação genética pode ajudar a definir a ordem de transferência dos embriões.
Mesmo nessas situações, a indicação precisa ser individualizada.
O exame deve ser discutido com transparência, considerando benefícios, limitações, custos, riscos e impacto sobre o número de embriões disponíveis para transferência.
Por que o PGT-A pode não ajudar todas as pacientes?
O PGT-A parte da análise de algumas células do trofectoderma, que é a região do embrião que dará origem à placenta.
Essa informação pode ser muito útil, mas não representa uma leitura perfeita de todo o embrião.
Além disso, existe o fenômeno do mosaicismo embrionário, quando diferentes células do embrião podem apresentar composições cromossômicas distintas. Alguns embriões classificados como mosaicos podem, em determinadas situações, resultar em gestação e nascimento saudável.
Por isso, a interpretação do resultado deve ser feita com cautela.
Outro ponto importante é o número de embriões disponíveis.
Em pacientes com poucos embriões, submeter todos eles ao PGT-A pode reduzir ainda mais as chances de chegar à transferência. Já em pacientes com muitos blastocistos, o teste pode ajudar a priorizar a ordem de transferência e reduzir o tempo até a escolha de um embrião com maior potencial.
O mesmo exame pode ter impactos completamente diferentes em cenários diferentes.
Individualizar é o único caminho
A reprodução humana não deve funcionar com protocolos automáticos.
Idade da mulher, reserva ovariana, qualidade seminal, histórico reprodutivo, perdas anteriores, falhas de implantação, número de embriões disponíveis e objetivos do casal precisam ser avaliados em conjunto.
Uma mulher de 30 anos, no primeiro ciclo de fertilização in vitro, com poucos embriões disponíveis, tem um cenário muito diferente de uma paciente de 41 anos, com vários blastocistos e histórico de perdas gestacionais.
A conduta para as duas não deve ser a mesma.
O PGT-A pode ser útil para uma paciente e não fazer sentido para outra.
A tecnologia existe e tem valor.
Mas o que define se ela ajuda é a indicação.
Mais tecnologia nem sempre significa melhor tratamento
Esse estudo traz uma reflexão importante para a reprodução assistida: fazer mais nem sempre significa fazer melhor.
Mais exames, mais procedimentos e mais tecnologia podem parecer sinônimo de maior chance de sucesso. Mas, na medicina reprodutiva, cada etapa acrescentada ao tratamento precisa ter um motivo claro.
Quando um exame não muda a conduta, não melhora a estratégia ou não traz benefício real para aquele caso, ele pode apenas aumentar custos, ansiedade e complexidade.
A boa medicina não é aquela que usa todos os recursos disponíveis.
É aquela que sabe escolher o recurso certo para a pessoa certa, no momento certo.
O que orienta as decisões na Insemine
Na Insemine, cada caso é avaliado individualmente, com base na ciência atual e nas características específicas de cada paciente.
A decisão de realizar ou não o PGT-A não parte de um protocolo aplicado a todos.
Ela nasce de uma análise cuidadosa do histórico reprodutivo, da idade, dos exames, do número de embriões disponíveis, dos tratamentos anteriores e dos objetivos de cada casal.
Mais exames e mais tecnologia nem sempre significam melhores resultados.
Às vezes, a melhor conduta é exatamente saber quando não acrescentar uma etapa a mais ao tratamento.
Se você tem dúvidas sobre o PGT-A ou quer entender qual estratégia faz mais sentido para o seu caso, agende uma avaliação com a equipe da Insemine.
Fontes:
- Roberts S. A. et al. PGT-A is associated with a reduced live birth rate in routine practice: evidence from the UK ART register. Reproductive BioMedicine Online, 2026.
- American Society for Reproductive Medicine. The use of preimplantation genetic testing for aneuploidy: a committee opinion.
- European Society of Human Reproduction and Embryology. Good practice recommendations for add-ons in reproductive medicine.
- Human Fertilisation and Embryology Authority. Treatment add-ons: PGT-A.
