Tabagismo e fertilidade: como o cigarro pode afetar quem está tentando engravidar?

O tabagismo pode afetar a fertilidade feminina e masculina. Entenda como o cigarro interfere na reserva ovariana, nos espermatozoides e no planejamento reprodutivo.

O cigarro costuma ser lembrado pelos seus efeitos nos pulmões, no coração e no risco de câncer.

Mas o impacto do tabagismo também pode chegar à saúde reprodutiva.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 6 adultos no mundo enfrenta infertilidade ao longo da vida. Esse dado não significa que o tabagismo seja a causa direta desse cenário, mas reforça a importância de olhar para fatores que podem influenciar a fertilidade e que, em alguns casos, podem ser modificados.

O tabagismo é um deles.

Fumar não explica todos os casos de infertilidade. Mas pode interferir na fertilidade feminina, na qualidade seminal, nas chances de gravidez e nos resultados de tratamentos de reprodução assistida.

Por isso, quando uma pessoa ou um casal está tentando engravidar, o uso de cigarro precisa entrar na conversa.

Como o cigarro pode afetar a fertilidade feminina?

O cigarro contém substâncias capazes de afetar diferentes etapas da função reprodutiva.

Entre elas estão a nicotina, o cádmio, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e outras substâncias associadas a estresse oxidativo e dano celular.

Na fertilidade feminina, o tabagismo pode estar relacionado a:

  • redução da reserva ovariana;
  • envelhecimento ovariano mais acelerado;
  • pior resposta à estimulação ovariana;
  • menor número de óvulos recuperados em tratamentos de reprodução assistida;
  • maior risco de perda gestacional;
  • antecipação da menopausa.

A ASRM aponta que mulheres expostas ao tabaco, de forma ativa ou passiva, podem apresentar alterações relacionadas à função ovariana, incluindo níveis mais elevados de FSH e menor intervalo até a menopausa. Também há evidências associando o tabagismo a piores resultados em tratamentos de reprodução assistida.

Isso não significa que toda mulher que fuma terá infertilidade.

Significa que o tabagismo pode reduzir as condições reprodutivas e deve ser considerado na avaliação de quem está tentando engravidar ou se preparando para um tratamento.

Tabagismo, reserva ovariana e FIV

Na fertilização in vitro, a resposta ovariana é uma etapa importante do tratamento.

Durante a estimulação, o objetivo é obter óvulos maduros que possam ser fertilizados em laboratório.

Em mulheres fumantes, alguns estudos apontam menor resposta ovariana, maior necessidade de medicação e possíveis impactos nos resultados do tratamento.

Mas é importante ter cuidado com a interpretação.

A FIV depende de muitos fatores: idade, reserva ovariana, qualidade dos óvulos, sêmen, embriões, endométrio, histórico clínico e condições metabólicas.

O tabagismo não é a única variável.

Ainda assim, por ser um fator modificável, parar de fumar antes de tentar engravidar ou antes de iniciar um tratamento pode fazer parte de uma estratégia de cuidado mais ampla.

Como o tabagismo pode afetar a fertilidade masculina?

A fertilidade masculina também pode ser impactada pelo cigarro.

O tabagismo está associado a alterações no sêmen, embora a intensidade desse impacto possa variar entre os estudos e entre os pacientes.

Entre os possíveis efeitos estão:

  • redução da concentração espermática;
  • piora da motilidade;
  • alterações na morfologia;
  • aumento do estresse oxidativo;
  • maior fragmentação do DNA espermático.

A fragmentação do DNA espermático é relevante porque pode se relacionar a pior desenvolvimento embrionário, falhas de tratamento e perdas gestacionais em alguns contextos.

A ASRM destaca que o tabaco pode afetar parâmetros seminais, gametas, gestação inicial e resultados de reprodução assistida, embora a relação entre cigarro e redução direta da fertilidade masculina ainda não seja descrita como conclusiva em todos os estudos.

Na prática, isso reforça um ponto importante: a investigação da fertilidade deve olhar para o casal.

Quando há tentativa de gravidez, não faz sentido concentrar toda a avaliação apenas na mulher.

Cigarro eletrônico é uma alternativa segura para a fertilidade?

Não é possível tratar o cigarro eletrônico como uma alternativa segura para quem está tentando engravidar.

A evidência sobre vape e fertilidade ainda é mais recente do que a evidência sobre cigarro convencional, mas os dados disponíveis já levantam preocupação.

Um estudo transversal com mulheres em idade reprodutiva no Reino Unido observou associação entre uso atual de cigarro eletrônico e níveis mais baixos de AMH, marcador usado na avaliação da reserva ovariana.

Em homens, um estudo populacional com jovens encontrou associação entre uso de cigarro eletrônico e menor contagem espermática.

Esses achados não significam que o vape seja uma causa isolada de infertilidade.

Mas indicam que ele também deve ser considerado na conversa sobre saúde reprodutiva.

O ponto central é que o cigarro eletrônico não expõe o organismo apenas à nicotina. A depender do dispositivo e do líquido utilizado, pode haver exposição a solventes, metais, aromatizantes e outros compostos com potencial efeito biológico.

Para quem está planejando engravidar, a ideia de “trocar cigarro por vape” não deve ser vista como solução reprodutiva segura sem orientação médica.

Por que isso importa no planejamento reprodutivo?

A infertilidade raramente tem uma única causa.

Idade, reserva ovariana, ovulação, trompas, sêmen, endométrio, histórico clínico, fatores genéticos, condições metabólicas e hábitos de vida podem fazer parte da avaliação.

O tabagismo entra nessa conversa porque é um fator modificável.

Isso significa que, ao contrário de idade ou histórico cirúrgico, ele pode ser trabalhado antes das tentativas ou antes de um tratamento de reprodução assistida.

Parar de fumar não garante gravidez.

Mas pode melhorar o cenário de saúde geral e reduzir exposições que interferem na função reprodutiva.

Na reprodução humana, nem toda mudança depende de um procedimento.

Algumas começam antes do tratamento.

Quando procurar avaliação?

Se você fuma, usa cigarro eletrônico ou convive com exposição frequente à fumaça e está tentando engravidar, vale conversar com um especialista.

Essa avaliação é ainda mais importante quando:

  • o casal tenta engravidar há mais de 12 meses;
  • a mulher tem mais de 35 anos e tenta há mais de 6 meses;
  • há alterações no espermograma;
  • existe baixa reserva ovariana;
  • há histórico de perdas gestacionais;
  • o casal está planejando FIV;
  • há desejo de preservar fertilidade.

A ideia não é transformar o cigarro na única explicação.

É entender como ele pode estar contribuindo para o quadro e o que pode ser feito antes ou durante o tratamento.

Como a Insemine pode ajudar?

Na Clínica Insemine, a avaliação da fertilidade considera o conjunto: história clínica, exames, idade, reserva ovariana, fator masculino e hábitos que podem influenciar a saúde reprodutiva.

Se você está tentando engravidar ou se preparando para um tratamento de fertilidade, o tabagismo precisa ser discutido com clareza e sem julgamento.

O objetivo não é culpar.

É identificar fatores que podem ser modificados e construir um plano mais seguro para o seu caso.

Conclusão

O tabagismo pode afetar a fertilidade feminina e masculina.

Nas mulheres, pode se associar a alterações na reserva ovariana, resposta à estimulação e resultados reprodutivos.

Nos homens, pode impactar parâmetros seminais e aumentar o estresse oxidativo, com possível repercussão sobre a qualidade espermática.

O cigarro eletrônico também não deve ser tratado como alternativa segura para quem está tentando engravidar, especialmente diante dos dados recentes sobre AMH e contagem espermática.

Parar de fumar não resolve todos os casos de infertilidade.

Mas pode fazer parte do cuidado reprodutivo, justamente por ser um fator modificável.

Se você está planejando uma gravidez, uma avaliação individualizada pode ajudar a entender seu cenário e orientar os próximos passos.

Referências científicas

  • World Health Organization. 1 in 6 people globally affected by infertility. 2023.
  • American Society for Reproductive Medicine. Tobacco or marijuana use and infertility: a committee opinion. 2023.
  • American Society for Reproductive Medicine. Recurrent implantation failure: a committee opinion. 2026.
  • BMC Women’s Health. E-cigarette use (vaping) and cigarette smoking are associated with reduced markers of ovarian reserve: a cross-sectional study of 16,087 women. 2026.
  • Human Reproduction. Use of e-cigarettes associated with lower sperm counts in a cross-sectional study of young men from the general population. 2020.

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