Este artigo traz uma análise baseada em evidências para esclarecer o papel das trombofilias hereditárias na reprodução assistida e ajudar pacientes e profissionais a compreenderem quando a investigação faz sentido.
O que são trombofilias hereditárias?
As trombofilias hereditárias são alterações genéticas que aumentam a tendência do sangue a formar coágulos. A mais conhecida é o fator V de Leiden, mas outras mutações também podem estar envolvidas, como a mutação da protrombina (G20210A) e alterações na metilenotetrahidrofolato redutase (MTHFR).
Diferente das trombofilias adquiridas, como a síndrome antifosfolipídeo, que têm relação comprovada com perdas gestacionais, as formas hereditárias costumam ter impacto discreto e variável, e nem sempre interferem na fertilidade ou na evolução da gestação.
Trombofilias e infertilidade: mito ou realidade?
Apesar da popularidade do tema, a ciência ainda não confirma uma relação direta entre trombofilias hereditárias e falhas de implantação ou infertilidade. Diversos estudos mostram que essas mutações são relativamente comuns na população geral e, na maioria das vezes, não resultam em complicações reprodutivas.
Nos casos de aborto precoce, por exemplo, o fator V de Leiden tende a atuar apenas após a formação da placenta, o que explica por que seu impacto seria mais relevante em gestações mais avançadas (após 12 a 14 semanas), e não na fase inicial da implantação.
Quando investigar a trombofilia antes da FIV?
A investigação de trombofilias deve ser individualizada, e não uma rotina para todas as pacientes que farão FIV. Segundo diretrizes internacionais, a pesquisa está indicada em situações específicas, como:
História pessoal de trombose venosa profunda sem causa identificada;
Antecedentes familiares de trombofilia hereditária confirmada;
Perdas gestacionais recorrentes, especialmente após o primeiro trimestre;
Complicações obstétricas graves (como pré-eclâmpsia severa ou restrição de crescimento fetal).
Nesses casos, a avaliação pode ajudar a identificar fatores de risco reais e definir condutas de forma personalizada.
O que diz a ciência sobre tratamento?
Quando há diagnóstico confirmado e indicação clínica, algumas terapias podem ser adotadas, como o uso de heparinas de baixo peso molecular ou aspirina em baixa dose. No entanto, é fundamental compreender que essas medicações não devem ser usadas de forma preventiva ou empírica, sem confirmação diagnóstica e sem evidência de benefício.
Estudos de revisão mostram que o uso indiscriminado de anticoagulantes em pacientes sem trombofilia comprovada não melhora as taxas de implantação nem de nascimentos em tratamentos de FIV.
Cuidados com o excesso de exames e tratamentos
A busca por respostas após falhas na FIV pode levar muitos casais a realizarem painéis extensos de trombofilias, muitas vezes sem indicação. Além do custo elevado, o excesso de exames pode gerar ansiedade, interpretações equivocadas e tratamentos desnecessários.
O cuidado reprodutivo deve ser sempre guiado pela individualização, pela análise clínica completa e pela integração com outras possíveis causas de falha, como fatores embrionários, endometriais ou hormonais.
Conclusão: individualização e evidência devem guiar decisões
As trombofilias hereditárias são um tema importante, mas seu papel na infertilidade ainda é limitado e frequentemente superestimado. Investigar e tratar de forma indiscriminada não traz benefícios comprovados, e pode até afastar o foco de outros fatores mais relevantes para o sucesso da FIV.
Na medicina reprodutiva, o equilíbrio entre tecnologia, ciência e bom senso continua sendo o caminho mais seguro.
