O congelamento de óvulos tem ganhado espaço no planejamento reprodutivo das mulheres brasileiras.
E a dúvida que mais aparece no consultório costuma ser a mesma:
qual é o momento certo para fazer isso?
A resposta passa pela idade, mas não apenas por ela.
Passa também pela reserva ovariana, pelo histórico clínico, pelos planos de maternidade, pelos diagnósticos associados e pelo tempo que aquela mulher imagina ter antes de tentar engravidar.
Congelar óvulos não é uma forma de garantir uma gravidez no futuro.
É uma forma de preservar os óvulos disponíveis naquele momento, com a qualidade possível para aquela idade e para aquele cenário reprodutivo.
Por isso, quanto mais cedo essa conversa acontece, maiores costumam ser as possibilidades de planejamento.
Por que a idade importa no congelamento de óvulos?
Ao longo da vida, esse número diminui naturalmente. Esse processo faz parte da biologia ovariana e não pode ser revertido.
Com o passar dos anos, especialmente a partir da segunda metade da terceira década de vida, a reserva ovariana tende a reduzir. Depois dos 35 anos, essa queda costuma se tornar mais relevante do ponto de vista reprodutivo.
Mas a idade não influencia apenas a quantidade.
Ela também se relaciona à qualidade dos óvulos.
Com o avanço da idade materna, aumenta a chance de alterações cromossômicas nos óvulos e, consequentemente, nos embriões formados a partir deles. Isso pode impactar as chances de implantação, evolução da gestação e nascimento.
Por isso, no congelamento de óvulos, a idade no momento da coleta é um dos fatores mais importantes.
O procedimento preserva os óvulos daquela fase da vida. Ele não congela a fertilidade como um todo, não interrompe o envelhecimento ovariano e não muda a idade dos óvulos que serão coletados no futuro.
O que os dados mostram no Brasil?
Os dados nacionais mostram que a procura pelo congelamento de óvulos vem crescendo.
Segundo informações do SisEmbrio, sistema da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2024 foram congelados mais de 150 mil óvulos no Brasil, e 57,1% pertenciam a mulheres com 35 anos ou mais. Esse dado foi reportado pela Agência Einstein/CNN Brasil com base no SisEmbrio.
Esse número chama atenção porque mostra que muitas mulheres chegam ao congelamento em uma fase em que o impacto da idade já precisa ser considerado com mais cuidado.
Isso não significa que congelar óvulos depois dos 35 anos seja inútil.
Significa que a expectativa precisa ser bem orientada.
Após essa idade, pode ser necessário um número maior de óvulos congelados, mais de um ciclo de estimulação ou uma conversa mais realista sobre prognóstico.
O ponto principal não é transformar os 35 anos em um limite absoluto.
É entender que idade importa e que conversar sobre preservação da fertilidade mais cedo pode ampliar as opções.
Existe uma idade ideal para congelar óvulos?
Não existe uma idade perfeita que sirva para todas as mulheres.
Mas, de forma geral, o congelamento tende a ter melhor prognóstico quando é feito antes da queda mais acentuada da qualidade e da quantidade dos óvulos.
Na prática, muitas sociedades e especialistas orientam que a conversa sobre preservação da fertilidade aconteça antes dos 35 anos, especialmente quando a mulher sabe que deseja adiar a maternidade por alguns anos.
Isso não significa que toda mulher abaixo de 35 anos deva congelar óvulos.
E também não significa que toda mulher acima de 35 anos perdeu a oportunidade.
Significa que, quanto antes a mulher entende seu cenário reprodutivo, mais tempo ela tem para decidir com calma.
A avaliação individual é o que transforma uma faixa etária em uma decisão clínica.
Quantos óvulos devo congelar?
Essa é outra dúvida muito comum.
E a resposta honesta é: depende.
Não existe um número universal de óvulos que garanta uma gestação futura.
As chances dependem de vários fatores, principalmente:
- idade no momento do congelamento;
- número de óvulos maduros congelados;
- qualidade dos óvulos;
- sobrevivência ao descongelamento;
- taxa de fertilização;
- desenvolvimento embrionário;
- condições uterinas no momento da transferência;
- uso futuro desses óvulos.
A ASRM aponta que a eficiência dos óvulos descongelados tende a diminuir com o aumento da idade no momento da coleta e que ainda existem dados limitados para definir um número ideal de óvulos no congelamento planejado.
Por isso, o número desejado precisa ser estimado dentro do contexto de cada paciente.
Uma mulher mais jovem pode ter melhor perspectiva com um número menor de óvulos.
Uma mulher com mais idade pode precisar discutir a possibilidade de mais óvulos ou mais de um ciclo para buscar uma chance mais consistente no futuro.
Mas nenhuma estimativa deve ser apresentada como garantia.
Por que nem todo folículo vira óvulo congelado?
Durante a estimulação ovariana, o ultrassom acompanha o crescimento dos folículos.
Mas folículo não é sinônimo de óvulo maduro.
Nem todo folículo visualizado contém um óvulo recuperado na punção.
Nem todo óvulo recuperado está maduro.
Nem todo óvulo maduro terá qualidade adequada para ser vitrificado.
Por isso, o número de óvulos congelados pode ser menor do que o número de folículos vistos nos exames.
Essa diferença é esperada e faz parte do processo.
É justamente por isso que a avaliação prévia da reserva ovariana ajuda a equipe a estimar a resposta provável à estimulação e a conversar sobre expectativas de forma mais realista.
Como a reserva ovariana é avaliada?
A reserva ovariana pode ser estimada por exames como o Hormônio Anti-Mülleriano, também conhecido como AMH, e a contagem de folículos antrais, realizada por ultrassonografia transvaginal.
Esses exames ajudam a estimar a quantidade de folículos disponíveis e a resposta esperada à estimulação ovariana.
Mas eles não contam a história inteira.
O AMH não mede a qualidade dos óvulos.
A contagem de folículos antrais também não prevê, sozinha, a chance de gravidez futura.
E nenhum exame substitui a avaliação clínica.
A idade continua sendo fundamental para interpretar esses resultados.
Uma mulher de 32 anos com reserva baixa e uma mulher de 39 anos com reserva preservada não vivem o mesmo cenário reprodutivo.
Por isso, reserva ovariana, idade e história clínica precisam ser avaliadas em conjunto.
Hábitos saudáveis ajudam, mas não pausam o tempo ovariano
Alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado, controle de doenças metabólicas e cuidado com a saúde mental fazem parte de um preparo importante.
Esses hábitos podem contribuir para a saúde geral e para melhores condições durante o tratamento.
Mas eles não impedem o envelhecimento dos óvulos.
Uma mulher pode ter excelente estilo de vida e, ainda assim, apresentar queda natural da reserva ovariana com o tempo.
Por isso, hábitos saudáveis são importantes, mas não substituem planejamento reprodutivo.
Como é o processo de congelamento de óvulos?
O processo geralmente envolve três etapas principais:
Estimulação ovariana
A paciente usa medicações hormonais por alguns dias para estimular o crescimento de múltiplos folículos no mesmo ciclo.
Coleta dos óvulos
Quando os folículos atingem o momento adequado, é realizada a punção ovariana, geralmente com sedação.
Vitrificação e armazenamento
Os óvulos maduros são congelados por uma técnica chamada vitrificação e armazenados em nitrogênio líquido.
O processo costuma durar cerca de 10 a 14 dias, mas esse tempo pode variar conforme a resposta da paciente ao estímulo.
Depois de congelados, os óvulos podem permanecer armazenados por tempo prolongado, desde que mantidos em condições laboratoriais adequadas.
O congelamento de óvulos garante gravidez no futuro?
Não.
Essa é uma informação essencial.
O congelamento de óvulos preserva uma possibilidade reprodutiva, mas não garante uma gestação futura.
Para que uma gravidez aconteça no futuro, esses óvulos precisarão sobreviver ao descongelamento, ser fertilizados, formar embriões, evoluir adequadamente e encontrar condições uterinas favoráveis para implantação.
Cada etapa tem suas próprias variáveis.
Por isso, a promessa nunca deve ser “congele e garanta”.
A orientação correta é: congele com informação, dentro de uma estratégia realista e individualizada.
O cuidado com o corpo ajuda.
Mas a biologia ovariana continua seguindo seu próprio ritmo.
Para quem o congelamento de óvulos pode ser considerado?
O congelamento de óvulos pode ser discutido em diferentes contextos.
Entre eles:
- mulheres que desejam adiar a maternidade;
- mulheres que ainda não sabem se querem engravidar, mas desejam preservar possibilidades;
- pacientes com endometriose, especialmente quando há risco para reserva ovariana;
- mulheres com histórico familiar de menopausa precoce;
- pacientes que passarão por tratamentos oncológicos ou gonadotóxicos;
- mulheres com baixa reserva ovariana que ainda não desejam engravidar;
- pacientes que desejam planejar a maternidade com mais informação.
A ESHRE reconhece a preservação da fertilidade como uma demanda em diferentes contextos, incluindo câncer, doenças benignas com tratamentos gonadotóxicos, condições associadas à insuficiência ovariana prematura e criopreservação por perda de fertilidade relacionada à idade.
A indicação, porém, deve ser sempre individual.
Congelar óvulos não é uma obrigação para toda mulher.
É uma possibilidade que precisa ser discutida com clareza.
Cada caso tem uma estratégia
Não existe uma única resposta para a pergunta: “quando devo congelar óvulos?”.
Existe uma avaliação.
A idade é importante.
A reserva ovariana é importante.
O histórico clínico é importante.
O desejo de maternidade também é importante.
Mas nenhum desses fatores decide sozinho.
Na Clínica Insemine, a avaliação da reserva ovariana e da história reprodutiva da paciente é o ponto de partida para conversar sobre preservação da fertilidade.
Se a maternidade faz parte dos seus planos em algum momento, talvez o melhor momento para conversar sobre isso seja antes de precisar correr contra o tempo.
Conclusão
O melhor momento para congelar óvulos depende da idade, da reserva ovariana, do histórico clínico e dos planos de maternidade de cada mulher.
Mas uma coisa é clara: a conversa costuma ser mais favorável quando acontece antes da urgência.
Congelar óvulos não garante gravidez futura.
Mas pode preservar possibilidades importantes para mulheres que ainda não desejam engravidar, que precisam adiar a maternidade ou que têm condições clínicas capazes de afetar a fertilidade.
Na reprodução humana, informação antecipada muda a qualidade das escolhas.
E planejamento não é apressar uma decisão.
É permitir que ela seja tomada com mais consciência.
Agende sua avaliação
Se você está pensando em congelamento de óvulos ou quer entender sua reserva ovariana, agende uma avaliação na Clínica Insemine.
A equipe pode ajudar você a compreender seu cenário reprodutivo e quais possibilidades fazem sentido para a sua história.
Referências científicas
- American Society for Reproductive Medicine. Evidence-based outcomes after oocyte cryopreservation for donor oocyte in vitro fertilization and planned oocyte cryopreservation: a guideline. 2021.
- American Society for Reproductive Medicine. Planned oocyte cryopreservation to preserve future reproductive potential: an Ethics Committee opinion. 2023.
- European Society of Human Reproduction and Embryology. ESHRE Guideline Female Fertility Preservation. 2020.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Sistema Nacional de Produção de Embriões, SisEmbrio.
